Eutanásia: a dor da despedida

agosto 10, 2011 :: Postado por - Mariana em Balaio de gato

A maioria dos posts aqui sempre foram levinhos, descontraídos e felizes… mas semana passada me peguei pensando em eutanásia. Acho que todo mundo já passou por essa situação, quando o veterinário olha pra você e diz que não há mais nada a ser feito e seu pet tem que ser “posto pra dormir”.

Não vou me posicionar nem contra nem a favor da eutanásia porque tenho certeza que, não importa de qual lado eu esteja, vai vir neguinho reclamando e xingando porque ele está “do outro lado” e aí vai vir outro defendendo aminha opinião…e vai virar uma muvuca sem fim! A única coisa que eu pretendo falar escrever é sobre as formas de eutanásia, quando a gente indica, porque a gente indica… para que os proprietários que estão passando ou já passaram por essa situação tão desconfortável possam pelo menos entender o porquê disso tudo e quem sabe, diminuir um pouco esse vazio que fica na gente cada vez que um dos nossos amigos peludos vai encontrar o Grande Felino/Canino do Céu dos gatos/cachorros.


É ou nao é de cortar o coração?
 

Antes de mais nada, vamos entender o que é e o que não é eutanásia.

Eutanásia NÃO é:

  • Sacrifício. Sacrificar significa (muuuuito grosseiramente, antes que os “sabe-tudo” venham dizer que não é isso) oferecer a vida para uma divindade. Algumas religiões antigas sacrificavam animais e até pessoas para os deuses em troca de paz, fartura, saúde. Dizer que você vai sacrificar seu cão ou gato é, no minimo, perturbador!
  • Abate. Abate é um termo usado só, e apenas só, quando o animal vai servir de alimento ou matéria prima. Os bois não são “eutanasiados” no matadouro, eles são abatidos. O leão não “sacrifica” a zebra, ele abate a zebra. E por aí vai…
  • Matar. Matar é simplesmente tirar a vida, sem motivo nenhum. O assassino mata. Por mais que alguns tenham alguns motivos obscuros e malucos (tipo dar a vida das vitimas a Deus ou ao capeta) não podemos dizer que um assassino “abate” ou “sacrifica” pessoas. Ele mata. Sem motivo, sem remorso, sem dó.

Eutanásia É:

Não preciso falar toda aquela coisa de que vem do grego eû = bom e thánatos = morte (dûh…já falei..!). Eutanasiar um animal significa tirar a vida deste animal de forma rápida e indolor, usando meios físicos ou químicos.

Agora que todo mundo já sacou direitinho o que é eutanásia (e espero que ninguém diga nos comentários “meu cachorro (gato) foi (vai ser) sacrificado“!), vamos entender rapidinho como é feita a eutanásia.

Existem vários (muitos mesmo!) meios de se eutanasiar um animal. Os métodos vão, entre outros, desde arma de fogo (usado em abate sanitário ou para animais muito grandes e agressivos – tipo selvagens), eletricidade, câmara de gás ou câmara de vácuo (os três vistos com reservas, porque são desagradáveis e cruéis) aos métodos mais utilizados e “humanos”: os métodos químicos, que consistem basicamente em uma anestesia “forte demais” ou anestesia seguida de uma injeção de cloreto de potássio ou um composto chamado T-61. Nesses casos o animal dorme..dorme…dorme…e não acorda mais.

 

Mas quando e porque a gente indica a eutanásia?

Vou compartilhar com vocês o que a gente (ou pelo menos eu!) aprende na faculdade: o animal tem que ser capaz de, no minimo, se alimentar e fazer xixi/cocô szinho. Pode ser com a ajuda de carrinhos, alimentação especial, manejo dietético especial…que seja. O importante é que o animal tenha um minimo de independência.

No momento em que o animal está tão debilitado que não consegue se levantar para fazer xixi ou comer (se suja todo e precisa de ajuda para comer) nós indicamos a eutanásia. Quando um animal chega nesse estado, em geral ele está com a doença tão avançada e com tanta dor que a única coisa que a gente pode fazer para aliviar o sofrimento e colocá-lo pra dormir. Algumas doenças não tem cura, assim,  o máximo que podemos fazer é prolongar a vida deste animal até o momento em que o tratamento sintomático não tem mais efeito. Entre “sofrer até a morte” e “morrer sem sofrimento” aprendemos a escolher smepre a segunda opção. O que não significa que nós, veterinários, gostemos de dar fim à vida dos animais nem que todos nós concordemos com isso.

Outro motivo que nos leva a não exatamente “indicar”, mas sim “forçar” uma eutanásia é no caso de animais com algumas zoonoses como Raiva e Leishmaniose. Estes animais não podem ser tratados, não importa que estejam assintomáticos e aparentemente saudáveis. Seu tratamento, no caso da leishmaniose, é proibido por lei em alguns estados e a raiva não tem tratamento. São doenças de notificação obrigatória. Não há nada que possamos fazer. Pelo menos ainda não.

Outros motivos que nos levam a realizar a eutanásia são os pedidos dos proprietários. A pessoa não tem dinheiro para pagar o tratamento ou o animal de exposição/esporte por algum motivo não pode mais competir e o proprietário não tem interesse em continuar mantendo este animal ou ainda o dono está se mudando e não quer procurar outra casa para o animal…… enfim são dezenas de motivos que levam a eutanásia. Alguns deles pra nós, que amamos nossos pets são absurdos…mas o que o veterinário pode fazer? “Você não quer mais manter seu animal? Vou pegar ele pra mim, então!” Seria ótimo poder fazer isso…mas infelizmente a maioria de nós não tem condições pra isso. “Se o proprietário não tem grana pra pagar o tratamento porque o veterinário não trata de graça?” porque, pequeno gafanhoto, nós também temos gastos na hora de tratar um animal. Podemos “cortar” o preço da consulta e o lucro sobre os remédios tirados da nossa farmácia, deixando bem mais barato para o proprietário, mas não podemos arcar com todos os gastos dos tratamentos de todos os proprietários que não têm condições. Eu adoraria poder fazer isso. Mas não posso. Nenhum de nós pode.


Se nós pudéssemos, leveríamos todos eles pra casa!

E, por ultimo, porém não menos importante  (#clichê), fica a pergunta: e depois da eutanásia? Como eu continuo com a minha vida? O que acontece com o meu pet no Além?

Algumas religiões não acreditam que existe “Céu” nem vida após a morte para os animais. Que quando eles morrem a existência deles simplesmente “se apaga”. Bom, eu não sei com certeza o que acontece, nem sei se Deus existe…mas tenho certeza de que, se ele existe mesmo, nunca iria permitir uma injustiça tão grande quanto negar o Céu a um animal! Alguns acreditam que os animais reencarnam, às vezes como outros animais e às vezes até como humanos, outros, que os animais vão pro Céu e esperam a gente lá…

Eu acredito que eles continuam com a gente. Não fisicamente, óbvio, mas que eles estão ali, cuidando da gente do mesmo jeito que cuidavam quando estavam vivos. E acredito que nós devemos aprender a deixá-los seguir seu caminho. Nos lembrarmos das alegrias que nos deram enquanto estavam vivos,  lembrarmos deles com saudade e alegria e não com dor e tristeza. Acho que quando a gente só consegue se lembrar de alguém com tristeza pela perda, esse animal (ou pessoa!) vai se sentir tão culpado por ter nos deixado que não vai conseguir seguir em frente e atingir o Céu (ou a reencarnação ou que quer que seja que aconteça). Devemos apenas agradecê-los por tudo, sabendo que esse pedacinho da gente que eles levam quando vão embora um dia vai voltar a se unir a nós…seja nessa ou na próxima vida.

 


Eu sou da mesma opinião que o Don Bluth: Todos os cães merecem o Céu (e os gatos também!)


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